| Transportando o Brasil |
Certo dia, na cidade de São Paulo, um motorista de ônibus urbano, ao fim de uma longa conversa, com um misto de desabafo e de orgulho, disse: "o motorista é totalmente o progresso do país". Antes, ele falava sobre o seu trabalho, sobre as dificuldades em realizá-lo, mas também sobre aquilo que lhe dava satisfação, numa conversa cheia de gírias e jargões próprios da linguagem da categoria, relatando acontecimentos que só os que pertencem a essa categoria profissional vivem e testemunham.
Essa é uma das frases que transmite uma das idéias que pode ajudar a caracterizar o que é o trabalho no ramo de transportes. Juntamente com ela, vem uma outra frase dita por trabalhadoras(es) desse ramo,que é: "a gente carrega o Brasil nas costas".
O sentido dessa frase leva-nos a pensar no complexo produtivo e de trabalho do Brasil. Vemos que os trabalhadoras(es) dos ramos industriais fabricam bens materiais, como os alimentos, o vestuário, os eletrodomésticos, as máquinas, os remédios, os automóveis, a matéria-prima para uso em outras indústrias, enfim, uma infinidade de coisas. Trabalhadoras(es) do setor primário, plantam, colhem e extraem minérios. Mas quem os faz chegar em seus destinos são as trabalhadoras(es) em transporte.
Importância
São essas trabalhadoras e trabalhadores que dinamizam a economia, garantindo o funcionamento do mercado e a vida social. E, mais ainda, garantem o transporte de trabalhadoras(es) para seus locais de trabalho, de seus filhos para as escolas, para as festas, para os estádios de futebol e para os sindicatos.
Transportam também os empresários e executivos para fechar seus negócios e os políticos. E carrega-se por ar, por terra e por mar...
O ramo de transportes define-se como aquele que presta serviços, o que provê serviços essenciais à população. Como também dizem algumas trabalhadoras (es), "é um gênero de primeira necessidade".
E, se assim não fosse, não existiria um dispositivo específico na lei de greve que põe algumas restrições quanto à realização de paralisações nesse ramo,tais como a exigência em notificar com antecedência a decisão da categoria em realizá-la e a manutenção de um mínimo de funcionamento de atividade (por exemplo: manter uma porcentagem da frota em funcionamento).
Essa lei refere-se aos serviços considerados essenciais, como é o caso também das trabalhadoras(es) no setor saúde.
Os outros segmentos de trabalhadoras(es) também consideram o ramo de transportes essencial, e isso pode ser observado em situações de greves. Uma greve no setor ferroviário,portuário, marítimo e de transporte rodoviário de cargas pode levar à interrupção de abastecimento de bens de consumo; no setor metroviário, ferroviário, aeroportuário, rodoviário intermunicipal e interestadual pode significar que pessoas não irão trabalhar, não irão à escola.
Uma greve no ramo de transportes certamente trará repercussões em outros setores do trabalho e da economia, pois interrompe-se um elo importante do ciclo produtivo.
O caderno de resoluções do IV Congresso da CNTT/CUT assim define o setor de transportes: "Uma característica essencial dos transportes é que eles não constituem um fim em si mesmo”.
Ao contrário, eles devem ser pensados como atividades meio, isto é, como alavanca fundamental para o processo de desenvolvimento econômico e social do País.
Os transportes constituem assim, um setor estratégico para a melhoria da mobilidade das pessoas e de bens , contribuindo dessa forma para a melhoria da qualidade de vida".
Uma outra característica também importante, presente em quase todas as atividades desse ramo, é o fato de os usuários (os consumidores) estarem presentes no momento em que o serviço é prestado (consumido).
Como será visto adiante, isso tem implicações importantes para as condições de trabalho e para a saúde das trabalhadoras(es), mas, ao mesmo tempo, significa a possibilidade de ter nos usuários - muitos deles também trabalhadoras(es) - um aliado importante para a conquista de melhoria de condições de trabalho.
Fonte: Caderno “Riscos no Trabalho em Transporte”- elaborado pela CNTT-CUT em parceria com a CUT Nacional - 2005.